Grito Azul
Segunda-feira, Janeiro 26, 2004
É muito gratificante para nós, não só na nossa individualidade como na nossa partilha colectiva, sentirmo-nos abraçados por observadores atentos que saboreiam alguns dos nossos petiscos. E, vulgarmente, é um pouco indecifrável a preponderância do vosso contacto com os nossos textos, as vossas introspecções convidadas por pedaços de escrita devota ; mais que um estímulo, será sempre uma necessidade escrita devota ; mais que um estímulo, será sempre uma necessidade implacável conhecermos a vossa opinião, a vossa amplitude de pensamento que vem regular a dimensão de todas as nossas produções. É deliciosamente recíproca esta entrega de gratuita de pulsações diversas. Por isso, apelamos também que nos divulguem as vossas obras para podermos completar este ciclo incorruptível. Será, certamente, o evento que nos poderá mais plenamente agradecer a vocês, calorosos leitores: nós termos, também, a oportunidade de ler-vos. Um obrigado apertado.
Bem, pessoal, vamos regressar à base! O blogger tem ainda mais problemas do que a parabolica, portanto, cá vimos nós de novo!! :D
MARÍLIA
Vago o instante em que não pertenço. Pouco a pouco, a desenhar cada gesto no infinito da casa, desligo-me. Largo dos olhos as mágoas que a caneta traduz fielmente. O meu choro são palavras.
E carrego comigo um ódio negro de não poder gritar e perder essas palavras num sufoco! Gastar a tinta a esta merda de caneta! Que ódio imenso e negro, o ter de me agarrar a estas folhas como um adolescente imbecil se agarra à almofada!
Repito, para não julgarem que sou maricas, porque os homens não choram por coisas inúteis, só pela morte, e mesmo assim… Mais vale repetir: o meu choro são só palavras. Repentinas e molhadas. E estas folhas lisas agora enxaguam-me. Serão estas folhas brancas as únicas que me escutam e alentam? Ou serão as únicas a quem eu falo e me entrego?
Nada sei; a minha cabeça é um despojo febril de material usado, de palavras que me perseguem e perscrutam deixando a minha vida num borrão! É…! Um borrão feio e inapagável!
Cobre-me, nesta tarde fusca, um desejo avassalador de não pertencer… ou, tão simplesmente, anular este bocado, esta hora, este dia em que nem sequer me devia ter levantado da cama! Nem eu me estou a reconhecer nestas palavras que deixo aos outros! Se calhar por, nestes momentos, deixar de ser fictício; o pano cai e a realidade se desventra. Nem eu me abraço, nem eu me contenho, pois eu sou um estranho a mim. Passo a vida a escolher papéis!
E é esse abraço e essa contenção que eu anseio agora. Um desejo estimulado pelo ódio associado ao amor. Amor! Ah, esse amor dos épicos, dos contos, das óperas. Sempre trágico, para variar… enfadonho… Já cansa Julieta, não achas?
Não pertenço e repito: A escrita é a metáfora do meu choro.
E porque insiste em doer? O que não ultrapassei para me torturar de novo? Amassar o meu coração num hematoma! É ridículo encharcar-me pelos meus pêsames, mas agora que comecei vou mutilar-me até ao fim, nervo a nervo!
Vou ficando solitário, no quarto. O presto dos relógios lembra-me que a vida não para, é como uma escada rolante, sempre a subir, um ciclo automático e infalível! Então, moribundo, na ausência dos olhos, dos corpos e das mentes, lembro-me dos laços que se formam independentemente do meu. O meu lacinho esfarrapado que se arrasta na rua à tua procura, minuto a minuto, hora a hora… Para quê? Para quê achar-te em cada vitrina e em cada prédio? Responde estúpida: para quê este laço? Não poderíamos, simplesmente, não nos termos conhecido?
Deprimem-me as horas mortas onde o silêncio se observa e a fome abre fossas hediondas no meu estômago. Onde estarás neste momento? Eu sou a vítima de uma paixão violentamente obsessiva! Porquê?! (pergunto espantado novamente). Odeio-me. Odeio-te. Odeio toda a gente que não precisa de mim, e odeio as que precisam e as que nem sabem que existo. Odeio o mundo, odeio a vida, odeio a morte, odeio ser e odeio se não fosse.
Onde estarás neste momento? Pensas em mim?! (pergunta infeliz). Mas quem pensa em mim? Estás-te a borrifar se eu te amo! Estás-te a borrifar se o mundo deixa de existir debaixo dos meus pés sempre que regresso a casa, longe de ti. Nem darias pela falta se eu emigrasse para a Sibéria, se eu fosse enterrado numa vala comum, se fosse queimado au bûcher, se eu fosse raptado para Saturno. Queres lá saber! E eu é que me vou arrastando, como uma velha carpideira, a compor palavras inúteis nestes blocos de post-it. Coisa tão fraca! Tarde tão fraca e ausente…
Ai como dói este flagelo de saber que mais ninguém sofre por coisas estúpidas e complicadas! Que mais ninguém no mundo todo precisa de, frequentemente, amarrotar a vida como um rascunho breve!
Ai Marília…
NF, o imbecil (já estava com saudades de escrever estes textos idiotas!)
DOMINGO, 25/1, 1:15 a.m.
Há muito tempo que esta noite foi escolhida para ser a tua. Essa noite que foi o culminar do teu mapa, a mesma que tão depressa acendeu os holofotes como apagou o brilho dos teus espelhos. Tão novo ainda! Tão umbilical…
Não estive atento. Não pude detectar em ti sinais de uma possível fraqueza (sabes, camarada, estas coisas sublimes detectam-se…). Mas eu não estive atento, esta noite. Não pude ver se já sabias de tudo e fingias ignorar. Se levaste em frente o teu jogo mesmo sabendo de antemão que era o derradeiro. Não estive atento.
Já era tarde para observar o que quer que fosse; mas ainda vi um sorriso, esse, tão aclamado e tão falsamente místico. Pois para mim foi o teu gesto mais único e individual. Não foi mais que uma oferenda última a nós, espectadores de vida e de morte. Qual sorriso? Foi uma prenda porque já sabias para onde ias, e deixas-te no ar essa beleza… suspensa… que um sorriso encerra.
E como sorris bem, tive oportunidade de reparar. O sorriso lavava-te a cara suada, já tão cansada… já tão pouco “nossa”. Mas era um sorriso branco – porque fazias aquilo em que eras melhor, aquilo que ninguém te podia tirar.
Não podia mesmo ninguém tirar-te dali, nessa noite?
Pois é: no melhor pano a nódoa cai. E a morte é uma condessa elegante que se dissemina cruelmente sobre as mais alvas vidas. Um corpo que agora são cacos afiados em múltiplas convulsões, num desespero calado de quem se debate perante um inimigo. Foram os movimentos últimos. Como um bicho és exposto perante o circo que delira, que chora, que se prostra. E o sorriso pesa e perpetua-se na memória até doer.
Terás ouvido os aplausos que encerraram a tua história? Terá isso sido, para ti, um ultimo aceno, agora que embarcas pelo céu, e a morte do corpo te rouba a alma?
Terás ouvido aquele povo imenso que não era o teu? Terás sentido a prece que ecoava pela plateia como urros de dor e desconsolo? E terás sentido o toque dos teus camaradas fiéis, a agarrarem-te firmes como se te quisessem prender a eles?
Irmãos que não são teus irmãos!
O povo que não é o teu povo!
Mas foram eles… fomos nós os últimos a abraçar-te. A derradeira despedida que carregas, agora que a morte te finta e prepara o seu remate, somos nós! Os últimos… As tuas exéquias… Nós todos, numa oração que se mistura com o terror e a ânsia.
Esperemos que agora a tua águia voe bem alto, em direcção aos teus.
Esperemos, em silêncio, o teu regresso à luz cortante dos holofotes: as luzes que te viram nascer, as luzes que te viram evaporar.
Feher.
NF, o imbecil (Mais um texto do meu quotidiano. Eu, que sou um mero aprendiz de alguém que aplica a morte para ensinar sobre a vida.)
MIKLOS FEHÉR
Mesmo para quem não liga nenhuma ao futebol (o que por acaso não é o meu caso) seria impossível tal acontecimento passar despercebido, ainda que nos tenhamos tornado mentes dormentes e cagativas. A mim, tocou-me especialmente a morte deste jogador, não porque o conhecesse pessoalmente ou tivesse por ele maior admiração do que pelos outros jogadores do meu clube do coração, mas por causa da sua trágica morte em campo.
Como acontece sempre, só soube da notícia muito tempo depois, no dia seguinte, de manhã. Fiquei triste com a notícia, que me apanhou de surpresa porque não sabia de nada. à hora do almoço corri a casa e com o comando da televisão percorri todos os canais, um a um, detendo-me sempre que falavam do acontecimento. Quando finalmente repetiram as imagens do jogo da noite anterior, um impacto doloroso atingiu o meu estômago e senti-me mal disposta o resto do dia. à noite, no jornal da noite, as imagens repetiram-se vezes e vezes sem conta, e eu nem forças tive para sentir nojo da TVI, a mais sensacionalista das cadeias de televisão portuguesas, que se aproveita indiscriminadamente de um tão trágico acontecimento. Só sei que, cá em casa, a minha família está proíbida de ver esse canal enquanto eu estiver na sala. O único momento de qualidade desse canal é o comentário do Professor Marcelo Rebelo de Sousa, que graças a Deus não se deixa manipular.
Este comportamento dos serviços noticiosos que me deixa com vergonha de ser portuguesa instiga a ferida. Numa sucessão de imagens, de uma dor que felizmente não vi em directo (um jogo de futebol já me põe os nervos em franja, quanto mais assistir em directo à morte de um jogador), a repetição inflama a dor que sinto e senti, como uma máquina de turtura. Como facas incandescentes a penetrarem a minha alma, a tristeza aflige, e o pior é que tratando-se do meu espírito, por ser etéreo, não o posso agarrar para tapar a ferida como faria se do meu corpo se tratasse. De tanto massacre, de tanto me impingirem o momento fatídico, desligo a televisão e enterro a cabeça nas mãos, para disfarçar o humedecer dos meus olhos.
Daqui para a frente....
...infelizmente tudo continuará igual. Não temos o poder de mudar o mundo, apenas o de nos submetermos a ele.
JN, a Hobbit de luto.
Segunda-feira, Janeiro 19, 2004
Estou à beira da mesa, atulhada de folhas soltas. Humedeço um pedaço de broa ressequida no chá fumegante a querer extravasar da chávena. Delicioso, nunca experimentaram? Sim, é para vós que escrevo. E, com a leviandade de um fim de dia a ceder à noite crepuscular, numa orgia luminosa esbatida no horizonte, é com devota paixão que vos comunico esta ode ao Mar.
Esse grande ?, sim, impronunci?vel e temperado da mesma forma que os fervores humanos assolam o mais comum, num estremecer que remoe as sensa??es mais preciosas. Nunca se sabe quem dirige essas sensa??es, perdemo-nos a tentar encontrar o amor que fez desabrochar as mais queridas tenta??es, os mais ?ntimos desejos, as mais pesadas preocupa??es. Eu amo o Mar- parece-me, ?s vezes, t?o ?bvio este amor: mais decifr?vel ? a sua preponder?ncia que me enleia, do que qualquer outro imponente efeito humano. Tenho medo que desfale?a em mim o car?cter humanista, que a minha afectuosidade fique relegada exclusivamente, alagada na prata do Mar. E tudo me parece inexor?vel junto dele. Que deleite t?-lo, esporadicamente, todo s? para mim! Ser?o sempre inolvid?veis os nossos encontros informais.
O Mar n?o se defende; as suas mar?s, a sua eterna exist?ncia refract?ria e indomin?vel, s?o os argumentos que materializam a Liberdade que me oferece. Farto estou eu de enunciar, presun?oso, o quanto este Mar me endoidece e enaltece, junto do meu corpo corro?do com o salitre, o elixir de me tornar cada vez mais flu?do, tecnicista na nossa cumplicidade!
Falta de Mar. Sinto a vida a minguar, a inoper?ncia a desbastar-me. E seria uma metamorfose implac?vel em que o meu corpo se transformaria numa carca?a plangente, se o mar secasse ou fugisse de mim. Eu amo o Mar e vou colhendo as flores do seu musculado jardim.
Mar prepotente que abusa do meu quotidiano, que me fere na sua dist?ncia e aus?ncia, fruto proibido de uma obssess?o inimagin?vel. Acredito, como em tantas outras situa??es em que me vejo for?ado a criar uma alternativa que me i?e das fossas onde sucumbo, que esse "fruto proibido" se torna ainda mais apetecido, suculento,na moderada consist?ncia com que o saboreio.
Encontr?mo-nos no Domingo. Nascia o dia luzidio, com o Sol a emergir do alto das copas crespas dos pinheiros bravos, suspensos sobre a terra ?spera das arribas f?sseis. A areia descola das covinhas dos pedregulhos crispados, levada em peregrina??es de ventanias, que comp?em o espor?o esticado para o Oceano. O Mar dourado e transparente junto do mexilh?o deixa iluminar os bancos de areia ondulados, superf?cies macias que as ondas sugam e devolvem com explos?es de rebenta??o branca. Os pescadores cavaqueam junto dos barcos em terra, cozendo as redes ou desfiando-as com as mesmas navalhas com que o peixe ? amanhado. As ondas rolam virgens e deixam escapar os seus portentosos bafos de ar comprimido..Oi?o-as, est?o t?o perto de mim. S?o bolhas espa?osas e espessas que se adensam com o volume das ?guas. Cabe l? dentro um homem. E uma prancha. E os tr?s elementos (prancha-onda-pessoa), perfilados numa harmonia extrema, permitem-se conjugar e complementar uma obra de arte flu?da, mais rigorosa do que aparenta. Oh, como desejo injectar estas pulsa??es em seres que n?o podem conhecer estas experi?ncias! Os c?es exaltam-se em estafetas pelo areal, com as gaivotas a sobrevoarem a costa com voos rasos. Est? na hora de mergulhar a alma no Atl?ntico, deslizar com velocidades estonteantes pelas massas de ?gua, procurando o equil?brio entre a press?o das sec??es cavernosas da onda. ? hora de voar, de ir mais longe que o comum dos mortais. Cada surfada regenera-me por dentro e por fora... L? est?o os tubos fant?sticos a enrolarem-se at? ao canal junto aos calhaus! S?o todos meus, nesta obssess?o matinal de uma manh? g?lida de Janeiro, alisada pela brisa que sopra de terra, fantasia pict?rica de tonalidades vigorosas de azul-ferrete e Sol reluzente. Eu amo o Mar. E muito mais poderia dizer sobre ele, doce lar que ? para os peixes, para os corais coloridos e para as algas, mar que muitas vezes ? usurpado por ambi??es materialistas. E os pescadores......Sou um devasso,n?o tenho paci?ncia para continuar este texto.
Entro no metro, esta??o da pra?a de Espanha. Soa uma m?sica cl?ssica t?o bela e extasiante, os blocos de cimento revestem-se subitamente de estuque e a ilumina??o tranforma-se em lustres de ouro e candelabros de porcelanas venezianas!!As rendas cobrem as mesas, novamente com o ch? a fumegar, com a neve a espreitar, cadenciada, pela janela embaciada...Estou num sal?o nobre austr?aco. (desculpem o fragmento)
o Cebolo
Domingo, Janeiro 18, 2004
Lena
Eu era ainda t�o pequeno. Trazia em mim a fragilidade de um rebento, os pulsos finos e fracos como um quebrar de caule; a insanidade de uma alma que nasceu para voar por fora dela mesma e os olhos im�veis e atentos em qualquer gesto em redor. Mas era muito pequeno. S� conhecia as coisas pelo seu nome. E gostava de as nomear e de as medir, grav�-las no espa�o que predispunha para os jogos, as brincadeiras, o pi�o.
Era pequeno e protegido, mas conheci-a a�, na porta de uma sala, ao p� da casa de banho dos rapazes. Eu, que entrava no pavilh�o sempre com alguns carolos e empurr�es; eu, t�o tenro ainda e t�o inocente, que quase passava despercebido, esmagado por uma multid�o mais violenta; rapazes mais fortes, mais selvagens, com vozes mais grossas; eu, encolhido perto da porta da sala, os olhos assustados e em l�grimas, a querer muito voltar para ao p� da minha m�e. Era o primeiro dia da minha vida na escola dos grandes. E eu n�o queria ir!
�s vezes, agora que sou t�o grande como os outros e tenho for�a, agora que conhe�o as coisas sem as ver e j� n�o lan�o o pi�o, gosto de imaginar como seria a minha vida se se alterasse o rumo das coisas; se, por ventura, tivesse optado pelo caminho da esquerda e n�o o da direita. Teria sido tudo assim t�o diferente? Talvez se a minha m�e tivesse cedido �s minhas birras naquele dia quente de Setembro, se ela me tivesse deixado ficar em casa, ou meter-me noutra escola� Mas eu estava l�. Encolhido, a tremer como um pinto, � porta da sala. E foi a� que a conheci. Ainda bem.
Agora que sou grande como os outros e tenho for�a, agora que conhe�o o mundo sem o ver e os dinossauros ficaram guardados num caixote debaixo da cama, coniventes do cot�o e dos sapatos, gosto de imaginar esse encontro como os filmes! Uma tarde quente com as primeiras folhas a ca�rem dos carvalhos; tudo em c�mara lenta e sem som: as pessoas s� se moviam de dentro para fora do pavilh�o, algumas m�os aterravam nas minhas costas e atiravam-me para o ch�o. A tarde desaparecia atr�s de um vulto que me agarrava pelos bra�os de galinha; algu�m me tirava da terra, eu ainda preso pelos solu�os e pelo mimo, algu�m me levantava. E agora, neste filme a preto e branco, distinguiam-se os gestos muito lentos de uma popula��o j� distante na minha vida, t�o querida e t�o longe! Perdida no mar das recorda��es, l� atr�s� � mesmo essa a sensa��o, a de filme, a minha antiga escola. Por�m, algu�m me transportava debaixo do bra�o. Eu nem sabia para onde ia, tinha a boca a saber a sangue e transpirava muito da cabe�a. Seria um daqueles grandalh�es de barba que me ia afogar nas sanitas da casa de banho? Seria o meu pai que me levava para casa e me protegia? Quem quer que fosse tinha uns bra�os fortes e quentes, como asas quentes de ternura. N�o era o meu pai. Tamb�m n�o era um dos grandes� Era ela. Aquela mulher que eu tinha visto entrar no pavilh�o antes de me terem empurrado.
Agora estava sentado na secret�ria dela, os outros � espera para entrarem, �Est� tudo bem? N�o te magoaste pois n�o? A partir de hoje tens de estar atento; nunca sabes quando podem aparecer umas m�os que nos empurram para o ch�o! Vais ter que te defender delas!� A minha vontade naquela altura, lembro-me bem, foi de ser insolente, tal como eu era com estranhos que me ajudavam. Se eu soubesse que essas palavras, sussurradas aos meus dez anos, me acompanhariam at� hoje�
Mas respondi que sim, que estava bem. Limpei os restos de �gua presos aos olhos com a manga da camisa, e tirei o beicinho. Estava, agora, com a pose que me tinham ensinado, numa aula estranha cheia de gente estranha. Uma mulher louca a falar com a gente como se fosse nossa m�e. A mostrar uns desenhos estranhos com uma voz estranha. At� o cabelo dela era estranho! Mas eu prestei aten��o, uma delicadeza fidalga, na eleg�ncia que eu julgava essencial para um homem de dez anos. De espinha direita, frio como uma est�tua, pernas dobradas e correctas por debaixo da carteira. O meu estojo tamb�m era perfeito como eu: Borracha impecavelmente branca que eu tinha pedido (ou exigido) que o meu pai comprasse; o l�pis afiado, sem farpas na ponta, porque o afia tamb�m era perfeito. E o caderno? Nem um vinco, as p�ginas eram como p�talas lisas de uma rosa nova. A mochila comprada na v�spera, a inundar toda a escola com cheiro a novo. Eu era, no fundo, um brio, um modelo que todos deviam seguir. Seria�?
Mais tarde descobri que aquela louca que me dava aulas era minha vizinha. Achei estranho. Julgava-me o �nico a ter o direito de morar longe, num s�tio inacess�vel e fechado. O que hoje condeno era o meu trunfo de crian�a. Era um orgulho, na prim�ria, dizer onde morava porque ningu�m sabia! E ent�o eu era obrigado a explicar tudo, a utilizar a ignor�ncia dos outros meninos como uma subst�ncia que me fazia ser mais forte e importante.
Encontrava a louca algumas vezes. Virava-lhe a cara. Nem sabia porqu�, talvez que os olhos dela escondessem uma verdade que eu, simplesmente, n�o queria aceitar. E quando, no centro do comercial, eu lhe virava a cara, at� as vitrinas me reflectiam a luz dela. Tinha luzes, sim. Parecia uma vela! Juro sobre estas folhas que, vezes sem conta, pensei que ela se iluminava por dentro (do casaco), e que esse brilho sa�a c� para fora, imposs�vel de ser ocultado. Seria�?
Os anos passaram. Fui ganhando os primeiros pelos na cara, a voz grossa que, ao princ�pio, desmaiava para um tom acima. De cada vez que me via no espelho da casa de banho, notava que tinha crescido. Estava a mudar, a crescer. J� usava a mesma mochila h� dois anos. E, �s vezes, deixava o estojo em casa! Passei a usar dossier de folhas emprestadas. E o l�pis escrevia a minha hist�ria, a borracha a apagava, a caneta a eternizava na mem�ria, o corrector apagava o eterno, substituindo-o por outra eternidade. Era complicada a adolesc�ncia! Foi mais ou menos por essa altura que conheci a m�sica. Foi mais ou menos a� que pisei pela primeira vez um palco a s�rio, e me senti feliz sem o saber!
E a louca continuava a ser a minha professora. Mas agora era a minha professora preferida! Levou-nos � serra da Estrela, ao Cadaval, a Tomar, levava-nos a acampar e a conhecer o mundo e as gentes! Levava-nos, com uma sabedoria de anjo, a sairmos da nossa casca! E fui crescendo� a ganhar, aos poucos, a consci�ncia do olhar que ela me mandava, anos antes, quando me via. Cresci a tentar ser, tamb�m, uma vela, se � que esse papel n�o me estava destinado desde sempre e para sempre. Quem sabe se o l�pis bem afiado e as exig�ncias de borrachas lisas, quem sabe se a camisa branca, apertada at� ao pesco�o, quem sabe se o trambolh�o no primeiro dia de aulas� quem sabe se n�o estaria tudo escrito desde a origem, e o encontro com a louca n�o fosse sen�o o princ�pio da minha vida? Quem sabe se estes solu�os e l�grimas que de vez em quando me obrigam a telefonar-lhe n�o sejam pedacinhos das l�grimas que um dia tamb�m chorei, sentado numa secret�ria, enquanto o resto da turma esperava para entrar? E esses pedacinhos, tamb�m eles, estejam destinados a evaporarem-se com o calor das nossas velas, a minha� a dela�
J� n�o a vejo h� algum tempo. Mas quando me perguntam por ela n�o minto: �Sim, temos estado juntos muitas vezes�!�
NF, o imbecil
Quinta-feira, Janeiro 15, 2004
"� pequenina e modesta
A casa que visitais
Mas reparai, est� em festa
Pela honra que lhes dais"
Estou refastelado, absorto, num banco a ver a vila.Uma turba engra�ada acotovela-se na feira de 23;toda a gente se debru�a sobre as quinquilharias e os objectos usados,roubados ou esquecidos.O Catran, o Primo Z�z�, a Delfina, mais uns quantos conhecidos...As ruas est�o coloridas com bancas atulhadas de brinquedos e outras ninharias, encafuadas entre a popula��o carregada de embrulhos.O Sol poente denuncia um �ltimo raiar ao cruzar da esquina;s� a igreja � que ainda se mostra ensolarada e luzidia, com os seus pin�culos muito altivos, como se obrigasse � penit�ncia toda aquela massa que supervisiona com defer�ncia.
Mas as igrejas deixaram de ser feias, deixaram de ser c�pticas e frias.Atravesso a casa do Pira, da Maria In�s- aquela paix�o aterradora de inf�ncia, alimentada por um coelhinho de olhos vermelhos que acarici�vamos juntos na oficina do av�.
Tenho que acabar de fazer as prendas. Sente-se a friagem alusiva ao Natal, os n�ons a tremeluzirem nas fachadas e a benevol�ncia dos comerciantes. Venero as tradi��es belas, ainda que desprovidas de fundamento hist�rico cred�vel. Que tal repelirmos, por instantes, as nossas convic��es e fazermos prevalecer um costume saud�vel, sem pensarmos muito na sua origem? Quem se importa?Quem nos acusa?O Natal � uma efemeridade calorosa, sentem-se as chamin�s a fumegar abundantemente e as grandes reuni�es familiares, � volta de um lume agu�ado com a tenaz da Tradi��o.
Um velho casti�o, com o pesco�o ocultado por um len�o e coberto com um casac�o muito russo, � atendido pela jovem ruiva do Z� Poupan�a:
-Despache-se l� � menina, que esses la�os nem sequer s�o para um homem usar ao pesco�o!-tro�ava, sorrindo. O velho explicou que aquelas prendas eram para o seu protegido neto, imaginando j� o olhar embevecido com que o menino o ia olhar, com os olhos extasiados de agradecimentos.Fora assim que o havia ensinado, dizia o velho, "sabe como �,quem d� p�o d� educa��o!".Depois do Z� Poupan�a onde o pre�o dos bombons � imbat�vel, � altura de vasculhar pelo Chin�s alguns objectozinhos inocentes e pr�ticos que sirvam na cozinha, na casa-de-banho ou na dispensa... Os chineses, simples e risonohs, com os olhos muito esticados, v�o de encontro aos clientes em apuros, acompanhados por uma comitiva de brinquedos coloridos e sofisticados que desferem toques polif�nicos quando algu�m ousa em tocar-lhes!
Deito-me nauseado.Vergo-me para alcan�ar o despertador que, na aurora matinal, apregoar� estridentemente a alvorada...o meu est�mago exala um sabor forte a ma�� e gengibre.Arr�to.Que enjoo ma�ador, a picar-me o est�mago e a obrigar-me a contorcer o corpo pesado, enleado nos len�ois. E o receio da in�rcia! Hoje que pouco fiz, temo que a noite n�o me d� vontade de dormir e que, ap�s um combate em que sou um est�ril advers�rio, seja a manh� que n�o me d� vontade de acordar.
Adorme�o. Entro na persegui��o do vulto angelical, impregnado de um aroma que sigo com rever�ncia pelos corredores.Mas n�o lhe chego..
o Cebolo(num peda�o das suas encruzilhadas natal�cias, considerem isto como os frutos ressequidos que sobraram do bolo-rei, ou o ac�car que escorreu das filhozes e se misturou com a mescla da sujidade do ch�o)
Terça-feira, Janeiro 13, 2004
Quando souber do flagelo do sangue
E n�o for apenas um resto
de mat�ria humana
Pequena e dispersa em decomposi��o
Quando come�ar a contar decrescente
por saber meu este veneno
sem cura ainda achada
E respirar sustentando o meu d�bil cora��o
Ent�o ter-me-ei a mim
Com t�o pouco tempo guardado na veia
Segurando com ambas as m�os
a vida que em mim se escasseia
.
.
.NF,o Imbecil
Segunda-feira, Janeiro 12, 2004
Lisboa e as gentes
Tudo seria eternamente belo, a paisagem citadina decompunha-se nos olhos de quem a v�.Olho para o rio que corre para o fim, a ternura desta vida e o que me mantem s�bria.
Vejo a imagem que cobre o meu rosto de bons sentimentos e me esola o cora��o num lugar s� meu.Sinto-me distante, bem al�m daquilo que imaginas.Sinto-me sozinha onde s� eu quero estar.A arte completa a mente e o desejo sacia o espirito.Serena, pl�cida, s�... naquele dia frio e voraz, onde um pequeno raio de sol entrava pela janela. Misteriosa ela sai de casa, arranja um pouco o cabelo que ficou branco devido as loucuras que teve em si.Calada, como so ela consegue ficar, os seus olhos transformam-se num pequeno peda�o de vida.Atenta, mira em qualquer caf� que p�ssa.Senta-se, s� na mesa do canto, onde ningu�m chega e onde ningu�m a critica por atitudes fracas do passado.V� quem passa, pede um caf� e fica a espera.De quem?Para que?At� quando?
Olho-a, uma tristeza invade-me e deseja guarda-la para sempre.Tantos anos de puro engano, tantas tristezas que se resumem numa mesa solit�ria, tantos passos convictos, tanta expressividade num s� cora��o.Pede desculpa incessantemente e olha com o cora��o, o seu discurso n�o termina e eu queria ficar ali, a ve-la para sempre.Lisboa num so grito me devora e consome, como amo esta cidade e como gosto de ve-la. As pessoas por momentos transformam-se em seres perfeitos, unidos por um s� sentimento.
Onde estar� a senhora que tanto nos queria ensinar?Onde estar� ela?
Ir� morrer de certeza e nos nunca saberemos quando ela ir� sair das nossas vidas como apareceu.Tr�mula e suave por entre cortinas escondidas ela determina um s� caminho.
Deve-se chamar Louca e morar na Loucura... como a poderei encontrar? No mesmo caf� e a mesma hora?
Esperarei por ela no sonho...
Para uma senhora que um dia encontrei, e voces sabem, amigos, como ligo a estes encontros que acontecem sem ser por acaso*
VC, a Louca- de volta ao mundo atento da Parabolica
MEDITA��O
Sentimento voraz, tr�mulo�
Preso a um horizonte que me esconde e esola.
Burburinho frio e �nico.
Mar da minha vida
Tu, que me conheces
E me acolhes em todos os momentos
Diz-me ,que rumo ser� este?
Nevoeiro s�brio de loucuras,
Que inconscientemente suportas tanta dor.
Sol �spero que aqueces a minha alma
E a moldas ao som das ondas do mar!
Embriagada de maresia, me solto
Neste mar
E voo at� ao passado...
Breve passado que ainda me guardas
Odioso passado que ainda me escondes!
Serei sempre este espectro de mar?
Uma pluma invisivel afogada na areia...
OH pl�cido mar, que � de tua infima pureza?
O sol vai morrendo a cada instante,
A presen�a atenua a dor,
O nevoeiro acalma este sentido,
O frio congela a alma
E eu regresso, num exorcismo perfeito
Onde uma breve l�grima alaga toda a minha terra.
Ser� de esperan�a?
De saudade?
Ou nao p�ssa de mais um momento de loucura?
RESPONDE-ME!!!
Ser� novamente a loucura???
Caminho, novamente, em direc��o ao mar
Morro mais uma vez,
No longo caminho desta vida,
Na pl�cida amargura desta doce natureza
Edificada e imune ao nevoeiro,ao sol e a mim...
VC,a Louca
Eles, Os Que N�o Pertencem Aqui
Ele... Eu conhe�o-o.
Ele n�o pertence aqui. N�o, n�o estou a falar do bairro, nem da cidade, nem do pa�s... estou a falar do planeta. Ele n�o � daqui. Eu sei, n�o por o ter espiolhado nem por ele me ter contado, mas porque ele quando olha, ele V�. E isso n�o � caracter�stico daqui.
N�o sei se me sinto a arder de curiosidade por me sentir como que identificada ou se simplesmente gostava de ser como ele. A sua presen�a faz-me pensar se eu realmente me sinto a viver neste s�tio ou se ando a fingir que est� tudo bem.
Eles, Os Que N�o Pertencem Aqui, s�o sempre estranhos. Inadaptados. Podem ser calados e nunca falar com ningu�m, ou podem falar pelo cotovelos. Mas o olhar � o mesmo. Olhem nos olhos de uma pessoa que considerem estranha, "desligada" ou "desintonizada" e v�o ver. Ver n�o, que n�s n�o Vemos. N�s s� temos um d�cimo desse Ver a que chamamos intui��o. Portanto, v�o poder intuir.
Ao longo do meu curto caminho eu tenho encontrado t�o poucos deles, d'Os Que N�o Pertencem C�... e eles parecem longe. Eu estico-meeeeee... e sinto-me ainda mais pequena do que j� sou.
Eu sei que eles, Os Que N�o Pertecem, c� sofrem mais do que n�s. Mesmo f�sicamente, podemos identifica-los pelo seu f�sico. Pode n�o ser aparente, pode n�o ser �bvio, mas � geralmente uma disfun��o relacionada com algo vital. Vital - vida - natureza - terra. Podem n�o ter cheiro. O seu modo de andar pode parecer, ou ser, estranho, meio desconchavado. Podem ter uma altera��o gen�tica qualquer. Podem ter um ar esgazeado. Pode ser algo ligado � coluna vertebral. Pode ser algo ligado � circula��o sangu�nea. Seja o que for, ser� sempre algo que reflecte uma deficiente liga��o � terra. Um desenra�zamento.
Mas isso � apenas um reflexo. A minha estranheza em rela��o a eles � grandemente ultrapassada pelo meu desejo de me fundir com eles, de os grocar ao seu mais profundo n�vel, de saber o que pensam, o que pensam, o que pensam, o que pensam... O QUE SENTEM. Provavelmente � dor. O desajuste provoca sempre dor, seja uma pe�a de roupa mal vestida, um enfermo respirando por uma m�quina ventiladora avariada ou o profundo sentimento de encarceramento neste planeta, sem saber o porqu�, o porqu� do abandono do Uno, o porqu� do desligar do ninho, do conforto. Sem d�vida, ser� dor. Sempre n�o, mas naqueles momentos de interroga��o... ser� uma dor lacinante. Mas � uma dor que me fascina... � uma dor diferente, � ing�nua, � ofuscante, soa a c�ntico de sereias e d�-nos a vontade de sofer com ela, de sermos totalmente possu�dos pela sua for�a destrutiva e torturante, um s�pl�cio intenso e sem escapat�ria poss�vel.
...Fds, que � que eu estou para aqui a dizer?
JN, a Hobbit (Reclama��es para NF, o imbecil, o respons�vel por isto estar aqui)
Introdu��o ao Universo
O mundo parou para olhar a rua a escorregar em sangue. Um preto homossexual judeu havia sido, ali, assassinado. Com quantas balas o rev�lver sustinha, com quantas balas levou. E o seu c�rebro, amarrotado, jaz morto aos p�s da sordidez humana, embebido em hemoglobina � o preto tinha sido assassinado.
� facto que a realidade n�o ignora, as almas desventradas de dentro para fora! A imagem transporta o directo real, a luz reflecte a jovem pele sedosa, negra� o jovem cujo namorado vem chorando desde horas a fio e pavio, sob o olhar aterrado de uns (poucos), e o olhar mordaz de outros. E, como que debru�ados sobre a carca�a judaica, os abutres filmam o sucedido. � facto que a realidade n�o ignora, as almas desventradas de dentro para fora!
A rua escorrega em sangue sobre o infeliz defunto. Tinha tudo na m�o: casa, emprego, fam�lia, sa�de, amor, namorado. O infeliz defunto teve muito azar em ter, tamb�m, cor, sexo e religi�o. Paci�ncia, h� males que valem por bem, e nem sempre se pode ter tudo!
Come�am as buscas: sofrem as fam�lias ao som das sirenes e do chilrear cosmopolita. Um vai-vem de macas e jornalistas tornam a morte um bocadinho mais viva. E o preto assiste a tudo, l� na �terra prometida�� ou, quem sabe, assista a tudo c� nesta terra ainda, bem no meio deste estrilho? Mist�rios insond�veis que a morte produz!
Um �ltimo pano o cobre. Algu�m apanha os restos de c�rebro amarrotado e atira-os, indiferentemente, para uma azinhaga. �� preto, e al�m disso�� - o riso e as sirenes abafam os homens. Perceber� ele, o c�o, na sua limitada consci�ncia, a consci�ncia dos seus donos?
O mundo parou sobre o foco de luz das c�maras, numa obedi�ncia muda �s regras que os sustentam, o seu brav�ssimo escape para a conveni�ncia. O morto, conivente do homem e da c�mara, insiste-se, mort�cio. Algu�m procura uma evasiva, um qualquer terramoto que baloice a terra. S�o horas, raia o dia! Os primeiros s�is despertam os quartos, abram essas gelosias! E todos deveriam estar ditosos, algu�m trouxe um bom amor como sustento, uma paz naturalmente sim�trica e branca!
Mas o preto foi assassinado. Coitado. E as ruas insistem em abrigar c�es vadios, com sangue ressequido nas barbas e nos bigodes. Estamos t�o longe do grande dia, oh oh, ainda a noite � uma crian�a!
Pobres dos que se adiantam no tempo, e se elipsam gera��es em busca de uma nova introdu��o ao universo, que t�m uma hora e um lugar diferentes, pobres os que t�m o passo um pouco mais adiantado, um pouco mais retardado. Mas tamb�m, quem manda serem assim, os outros? Corpos entrela�ados, vivos queimados�quem os manda serem assim, os outros, t�o dentro e t�o presos �s grilhetas do infort�nio do seu pr�prio tempo�! Corpos entrela�ados, vivos queimados�
O preto homossexual judeu jaz morto dentro da ambul�ncia. Est� mais morto que vivo� ou, quem sabe, n�o estar�, neste momento, mais vivo que morto? Mist�rios insond�veis, esses, que a morte produz�
NF, o imbecil
Oi�o os outros e, para me ouvir a mim, saborosa e delicada experimenta��o, repouso na minha �ntima solid�o a escrever...Estranho sentimento! Os autocarros dobram as ruas vazios, os c�es aprendem a ser ordeiros na sua breve passeata pela rua, cagando deliberadamente as lajes do passeio com semi-liqu�dos asquerosos. Talvez as dom�sticas, encarregues de t�o servil tarefa, se lembrem de raspar as poias do ch�o enquanto acorrentam sem piedade os caninos...Leio e penso mais uma vez, invariavelmente, em locais id�licos, sucursais de um Para�so dilu�do na grande Terra. A minha face imberbe denuncia a inexperi�ncia, a imagina��o e deprava��o de supor conhecer outras ambi�ncias, t�o dissociadas daquilo que cometo, daquilo que historicamente sou! E, inevitavelmente, t�o b�sico, uma t�bua branca e virgem sujeita a ser pu�da com amarguras e excita��es! O desconcerto � um h�bito consagrado, avivado nos costumes paralelos � vida que � sempre esperada. Tem que o ser. A conformidade � proibida, ou talvez sagrada e relegada para momentos fugazes- quando n�o estamos a ser seduzidos pela auto-contempla��o, quando n�o pensamos no fardo que nos pesa nas costas, arrebatador, porventura alicer�ado com os bra�os solid�rios dos amigos, da fam�lia. Quem � o sujeito imune � m�-hora, que nunca se sente indesejavelmente comprometido, obrigado!? Denuncie-se! Esclare�a a estabilidade que poder� regenerar o meu esp�rito lacerado! Talvez esse sujeito n�o pense, poderoso escape ...e isso seria t�o doce, t�o torpe tamb�m... Injusto para aqueles que se lisonjeiam com os assuntos e deveres que acarretamos penosamente, fatigados... N�o ser�o tamb�m esses oportunistas injustos, desrespeitadores? Talvez, na suas intui��es irrevers�veis de orgulho e gozo hediondo. Ser�amos piores, se n�o tiv�ssemos paci�ncia para pensar... Pensamos. Em n�s e nos outros. E tamb�m naquilo que n�o existe, no mito, que poder� posti�amente afirmar, sob m�ximas e prov�rbios sublimes, aquilo que somos e queremos mutuamente. Nisso somos todos iguais, ainda que distintamente temperados, a aclamarmos a vontade de nos sentirmos bem. E depois, saboroso e pleno culminar de desejo pessoal, escrevemos, esva�mos a alma generosa num enredo pungente de palavras. Agrade�o a vossa coragem. Principalmente, para perceberem como se devem agradecer a voc�s pr�prios. (Que presun��o esta, do poder subentendido nas palavras!)
------Para a pequena/grande Nicolas, Loucuras e Imbecilidades-------------
Os �Cavaleiros do Asfalto� partem, num fervor macabro, para a sua batalha de mentes aut�matas. Tomara, aprisionadas em sumptuosas pe�as Lego (aka pr�dios da Portela)! Desculpem, uma vaga alus�o a express�es negligenciadas nas brisas que desbastam com uma bela pitada de originalidade.
O Cebolo(mais uma vez, a combater no seu caldeir�o de grossas paredes imut�veis!)
Tributo aos legumes
Por quem sois legumes deslavados? Na qualidade de Cebolo, uma vez honrada em vossa presen�a, vejo a vossa mediocridade e hipocrisia a despontar no seio dos vossos mais queridos minerais!! Sim, aqueles aos quais v�o buscar o elixir da vida e, pelos vistos, o elixir do prazer! Sim � claro que as vossas paix�es, os vossos interesses, as vossas raz�es retiradas das enxadas da moda e do materialismo s�o superiores quando � para dar uma rabanada nos amigos! E que receio que tenho, embora n�o seja t�o nabo, de escorregar por instantes para o abismo das vossas m�ximas!! Sim, porque disso j� sou acusado...quando do cimo da terra n�o vier a doce �gua e ca�rem, em compensa��o, os medalh�es de cifr�es bonitos e reluzentes mas que as vossas ra�zes n�o absorvem, a� voc�s perceberam do que precisam: de uma boa enxurrada que vos revolva a terra!! Pode ser que, � falta de min�rios, os medalh�es percam a import�ncia...
O Cebolo
(desculpem a agressividade, este texto � dedicado aqueles que s�o �legumes� na turma 12�IVA e que, presun�osamente, comandam o capitalismo dos subsolos)
Eu quero... E tu?
Existe um certo furor, hoje em dia, em querer ser alguma coisa, em integrar um molde, em adoptar um passo ou um olhar, tudo para que se seja aceite e compreendido.� uma teimosia esta, a de ignorar o processo que nos diferencia de qualquer um dentro da nossa esp�cie, ignorando, tamb�m, que marcar a diferen�a n�o significa ser "diferente". Neste meu meio (e tomo a liberdade de o dissecar por ser meu e por me afligir como um ataque de asma) as coisas v�o surgindo pela lei do mais bizarro, daquilo que pode, eventualmente, impressionar (se realmente nos impressionar aquilo que � dificilmente impressionavel por ser totalmente fantasioso e excessivamente parolo). Ora imaginando uma tela, � mais ou menos como se decidissemos, caoticamente, entornar as matizes e mistura-las como se fossem massa para um bolo. Depois, com um pincel gordo (que at� larga pelos), espalhamos a tinta e no fim est� sobre n�s um mist�rio horrendo que pode, talvez, representar um cesto com flores ou o suic�dio de Of�lia; imaginando uma pe�a musical, talvez seja poss�vel construirmos a imagem de uma pe�a distorcida (pseudo-creativa) onde os acordes disparam sem nexo em intervalos de segundas, onde os ritmos s�o plagios de obras de grandes mestres, onde se priva totalmente da originalidade. No fim que temos? Ora, no fim apreciamos uma moda valsante da Beira Litoral ou o "sacre de printemps" de Stravinsky A pe�a � diferente, mas nem por isso marca a diferen�a; podia citar in�meros exemplos daqueles que me d�o realmente prazer em pensar, mas para n�o ma�ar muito darei apenas, finalmente, o exemplo de um texto: constru�do com esteticismos vulgares, imagens s�rdidas que tendem a impressionar, com algum cal�o que sobressai grosseiramente no meio do edenismo das imagens tendencisoas, algo "super contemporaneo", meu dEUS, " super receptivo". Se continuamos a torcer as almas a procura de desmistificar este "enigma", ent�o observemos as obras paralelamente a alguns dos seus criadores. Melhor! (porque estes nem sempre s�o os piores), observemos as obras paralelamente aos seus disc�pulos, ou aqueles que, diferentes de si e iguais a todos os outros, puxam incoscientemente a linha do len�ol que n�s andamos a tecer, len�ol de linho puro e branco e incorrupt�vel, len�ol que se desfia pela m�o dos outros, disc�pulos diferentes deles mesmos, iguais aos outros.
Basta, para desmistificar este "enigma", que pensemos na tend�ncia para os nossos vizinhos se agruparem todos, se arrumarem por grupos, por se estratificarem e consumirem e produzirem de acordo com a sua etiqueta. Basta, para n�o ser deveras mordaz, que na nossa cabecinha se formule o pensamento di�rio: Se por um lado todos se arrumam na sua garagem impessoal e se vestem com os vestidos dos outros (usando a genialidade metaf�rica de sophia), se por um lado todos se ocupam em crescer por bases inactivas do Ser, por outro germinam, como musgo, os grandes vultos mascarados de diferentes, grandes vultos de raz�o e de palavra que protestam; que berram; que se destacam; que se violam a si mesmos em somat�rios de tristeza e confian�a podre... S�o eles os vultos que ardem nas ruas como achas de protagonismo e que s�o "diferentes". Mas diferentes do qu�? Diferentes de quem? Diferentes aonde? O que � ser diferente? Diferentes, qui��, deles mesmos, afastados da sua verdadeira essencia e da sua verdadeira p�rola; Diferentes na sua selva, onde protestam por serem s� mais um pouco grotescos, por serem s� mais uma mascara social, desta feita, de Carnaval...
Eu preferia deixar-me destas coisas. Preferia deixar esta mascara que, tambem a mim, amea�a vir a p�R-se. Resignar-me e ver as coisas de detro do casco do meu velho pinheiro. Mas as vezes ha tantas situa��es que me provocam um acrescento de impaci�ncia, tal qual como se duas m�os violentas, com a for�a de uma sociedade inteira, me empurrassem de encontro ao abismo. E eu tenho medo do escuro.
Por isso escrevo para aqui. Sei quem �s, de quem e onde te escondes. Porque, para grande gra�a minha, descobri-te quando tive de voar para al�m do meu espa�o, descobri-te no meio do abismo, onde "s� voa quem se atreve a faz�-lo".
No que respeita a tudo mais, � o meio meio (aquele que eu tomo a liberdade de dissecar quando me aflijo), e o meu reflexo.
(as vezes gostava de escrever sem remorsos - como uma querida amiga minha se vai convencendo a fazer - mas estive a "magicar" este velho peda�o durante muitas semanas, a mastiga-lo severamente como se tivesse medo de o cuspir)
N�o terminarei este testemunho sem uma passagem daquilo que considero ser um dos mandamentos da minha tabua. Espero que o acompanhem:
O REI S�BIO
Era uma vez um rei, na long�nqua cidade de Wirani, que governava os seus s�bditos com sabedoria.
Era temido pelo seu poder e amado pela sua sabedoria.
No centro da cidade havia um po�o de �gua fresca e cristalina, de onde bebiam todos os habitantes, incluindo o rei e os seus cortes�os porque n�o havia outro po�o.
Certa noite entrou na cidade uma bruxa e derramou no po�o sete gotas de um estranho l�quido, dizendo: "A patir de hoje quem beber deste po�o ficar� louco".
Na manh� seguinte todos os habitantes do reino, com excep��o do rei e do ministro, beberam a �gua do po�o e enlouqueceram.
Durante todo o dia nas ruas, mercados e pra�as n�o faziam outra coisa sen�o murmurar: "O rei est� louco! O nosso rei e o minsitro perderam a raz�o. N�o podemos suportar ser governados por um rei louco. Temos de o derrubar do trono.
� noite, o rei mandou encher com �gua do po�o um grande vaso de oiro. Trouxeram-lho, ele bebeu avidamente e pasosu-o ao seu ministro para que ele tambem bebesse.
Na grande cidade de Wirani houve no dia seguinte grande alegria, porque o rei e o seu ministro tinham recuperado o ju�zo.
Eu quero... e tu?
NF, o imbecil
P.S. Parafraseando um outro meu amigo, eu devo pedir desculpa, um pouco presun�osamente, pela extens�o do post, mas n�o tive sabedoria para menos.
Ilha Esmeralda II
Compr�mos um p�o esquisito que nos soube bem seco. No regresso a casa, a aguentarmos com um pesado manto de �gua sobre a tortuosidade das estradas, fomos surpreendidos com dois surfistas a desbravarem ondas bastante desfeitas. Soltou-se uma nostalgia, embora os pastos cheios de gado em redor e a praia deserta deixassem em suspenso aquilo a que se pode chamar de �surfada convencional�.
Apesar da fraca visibilidade, era impressionante observar a sequ�ncia de promont�rios rochosos com mais de duzentos metros que se espalha por alguns quil�metros. O mar, escuro e encapelado, choca nos altos penhascos com uma f�ria ruidosa. A torre medieval, outrora vigilante das perigosas escarpas moldadas pela brutalidade do mar, avista-se de todos os promont�rios como o ponto mais alto a alcan�ar. � gigante a beleza pura deste local. Uma whistle soa long�nquamente, complementando os gritos revoltos do mar e o coaxar triste das r�s.
� uma paisagem emoldurada na minha mem�ria. Passeamos pelos halls faustosos e cuidadosamente ornamentados, recheados de madeiras reluzentes e pe�as minuciosas de cer�mica. Juntam-se pesados cadeir�es forrados e div�s, um piano de cauda e uma grande harpa, iluminados por grandes lustres suspensos no tecto talhado. Rompemos pela sala do Breakfast e � nos facultada uma mesa arejada pela vista do jardim. � um esp�rito cl�ssico que nos envolve, uma postura secular que temos oportunidade de desfrutar.
Um grupo de jovens comemoram efusivamente um anivers�rio. O bolo, gordo e brilhante, suscita a tenta��o de pedir um peda�o. Parece que o esplendor bruto e intoc�vel destes jovens � natural no f�sico de uma ilha, em si, bela e agreste. As luzes ba�as, as canecas a transbordarem de espuma e os n�ons antigos ilustram o �pub� casti�o. Retir�mo-nos at� ao nosso abrigo, agora que o mau tempo se come�ava a impor. Dormi descansado e feliz na �Terra do homem tranquilo�, como um filme carism�tico se intitula.
O Cebolo
Ilha Esmeralda I
Correm ribeiras abruptas e selvagens at� ao fundo dos vales, partindo dos cumes encobertos. S�o imagens m�ticas, eternizadas nas fic��es mitol�gicas celtas, ricas em contos de fadas, duendes, esp�ritos femininos e outros seres sobrenaturais; as descri��es dos mitos distinguem dois mundos, o das coisas vis�veis e o das coisas invis�veis, o dos guerreiros e o dos druidas, fundamentando uma rela��o social harmoniosa entre o humano e o divino. A mulher representa, neste mundo, um papel catalisador e regenerador, partindo do seu amor os enigmas e as garantias de eternidade.
Jovens, velhos, crian�as e beb�s circulam nas bicicletas que atravessam freneticamente as ruelas e as pontes sobre os estreitos canais .Os �pubs� nas esquinas s�o in�meros e escondem uma m�stica grandiosa . Ao sabor das canecas luzidias de cerveja, das imensas gargalhadas e do conv�vio caloroso, uma vaga de fervor embate sobre n�s como um Sol que torna as peles secas e enrugadas.
A tradicional m�sica celta, pungente e reveladora da arte de um povo lutador que tra�ou a sua hist�ria, desde os prim�rdios, sob guerras e conflitos sangrentos. Entre as tribos celtas do centro da Europa e as invas�es dos Vikings, passando pela condena��o ao paganismo e � convers�o do cristianismo primitivo, por St. Patrick, dos tempos �ureos da riqueza mon�stica e da consequente invas�o dos Normandos, at� �s lutas incessantes contra o Protestantismo e a hegemonia inglesa, os habitantes desta ilha t�m sobrevivido a sucessivas destrui��es e intemp�ries avassaladoras. � a� que surge a for�a deste povo, o refor�o natural da identidade e da tradi��o que nunca se apaga...
Infelizmente, o turismo j� provoca muitas rendi��es a locais que representam a m�stica e identidade de um pa�s. � curioso como a ind�stria comercial se sobrep�e aos valores tradicionais, fazendo prevalecer uma imagem pl�stica e posti�a com que os cofres do Governo lucram e beneficiam. A verdade � que, cansado de ver rostos morenos, queimados pelo sal e pelo Sol, tenho a oportunidade de vislumbrar faces rosadas, sardentas, que exibem uma natureza saud�vel. H� certas coisas insol�veis que nunca se perdem.
O Cebolo
Ilha Esmeralda I
Correm ribeiras abruptas e selvagens at� ao fundo dos vales, partindo dos cumes encobertos. S�o imagens m�ticas, eternizadas nas fic��es mitol�gicas celtas, ricas em contos de fadas, duendes, esp�ritos femininos e outros seres sobrenaturais; as descri��es dos mitos distinguem dois mundos, o das coisas vis�veis e o das coisas invis�veis, o dos guerreiros e o dos druidas, fundamentando uma rela��o social harmoniosa entre o humano e o divino. A mulher representa, neste mundo, um papel catalisador e regenerador, partindo do seu amor os enigmas e as garantias de eternidade.
Jovens, velhos, crian�as e beb�s circulam nas bicicletas que atravessam freneticamente as ruelas e as pontes sobre os estreitos canais .Os �pubs� nas esquinas s�o in�meros e escondem uma m�stica grandiosa . Ao sabor das canecas luzidias de cerveja, das imensas gargalhadas e do conv�vio caloroso, uma vaga de fervor embate sobre n�s como um Sol que torna as peles secas e enrugadas.
A tradicional m�sica celta, pungente e reveladora da arte de um povo lutador que tra�ou a sua hist�ria, desde os prim�rdios, sob guerras e conflitos sangrentos. Entre as tribos celtas do centro da Europa e as invas�es dos Vikings, passando pela condena��o ao paganismo e � convers�o do cristianismo primitivo, por St. Patrick, dos tempos �ureos da riqueza mon�stica e da consequente invas�o dos Normandos, at� �s lutas incessantes contra o Protestantismo e a hegemonia inglesa, os habitantes desta ilha t�m sobrevivido a sucessivas destrui��es e intemp�ries avassaladoras. � a� que surge a for�a deste povo, o refor�o natural da identidade e da tradi��o que nunca se apaga...
Infelizmente, o turismo j� provoca muitas rendi��es a locais que representam a m�stica e identidade de um pa�s. � curioso como a ind�stria comercial se sobrep�e aos valores tradicionais, fazendo prevalecer uma imagem pl�stica e posti�a com que os cofres do Governo lucram e beneficiam. A verdade � que, cansado de ver rostos morenos, queimados pelo sal e pelo Sol, tenho a oportunidade de vislumbrar faces rosadas, sardentas, que exibem uma natureza saud�vel. H� certas coisas insol�veis que nunca se perdem.
O Cebolo
Pois �, eu so escrevo aqui quando tenho uma peso que preciso de tirar de cima...
Estamos na v�spera da estreia da pe�a "Cantico de Natal"... E andamos todos atarefados e cada um a tentar dar o seu melhor para que o resultado final seja mais do que excelente.
Temos tido muito, mas mesmo muito trabalho, e pelo menos no meu caso, eu tive que me superar a mim mesma para conseguir estar ao n�vel deste projecto ambicioso. Tudo isto tem sido ainda mais dificultado pela falta dos apoios econ�micos que nos prometeram e n�o est�o a ser cumpridos como devido.
Mas este acr�scimo de dificuldade exigiu mais de n�s, o que levou � cria��o de um esp�rito de grupo e de amizade que eu nunca tinha experimentado antes. Ao mesmo tempo que me sinto euf�rica por estar a viver este tipo de experi�ncia, sinto por outro lado uma incr�vel ang�stia ao pensar que n�o vai durar para sempre... Para o ano metade do grupo mudar� de escola, e de certeza que de grupo de teatro tamb�m. Eu compreendo, � claro, tem que chegar a altura de seguir em frente, de evoluir... Mas d�i sempre "perder" do meu quotidiano aquelas pessoas que me fazem sentir feliz por n�o ter mudado de escola. Por n�o ter desistido de continuar a estudar num sitio de que n�o gosto, nem do ambiente, nem da mentalidade, nem das pessoas... No fim, vejo que valeu a pena. Valeu a pena, pelas pessoas que conheci e pelas quais tenho desenvolvido um carinho muito especial, uma esp�cie de amor incondicional (n�o, nao estou a exagerar).
� claro que sempre que este tipo de rela��es se estabelecem, a separa��o d�i sempre. Existe a atenuante do "n�s vamos voltar a ver-nos, prometo que combinamos jantares e almo�os e encontros" mas com o tempo as prioridades mudam (� a evolu��o da vida, � assim que funciona) e aquilo que nos faz feliz tamb�m muda. � complicado manter uma rela��o como estas com dois ou tr�s encontros por ano... E ainda por cima sem algo poderoso como o teatro a unir-nos regularmente.
No fim, digo a mim mesma que nada h� a fazer sen�o aproveitar porque ainda n�o acabou, e n�o faz sentido estar a sofrer antecipadamente algo que ainda h�-de vir. Agora � aproveitar. Tento estar com cada pessoa tanto tempo quanto poss�vel, para que no futuro me possa lembrar de cada uma com toda a clareza. Quero que assim seja.
Faltam pouco mais de 21 horas para darmos � luz, todos n�s, o nosso pequeno projecto pelo qual nos esfor��mos tanto. No fim do espect�culo, a sensa��o ser� um pouco como se tivessemos vazios, como se tiv�ssemos perdido alguma coisa... como quando um filho sai de casa, ou quando vamos visitar um grande amigo ao estrangeiro e vimos na viagem de volta a pensar que o evento n�o se repetir� t�o cedo. A pensar que nada se pode fazer para voltar atr�s. O tempo s� sabe olhar em frente, por mais que queiramos segurar o momento presente com os nossos dedos finos, fracos... impotentes... Cada momento parece pulsar enquanto � vivido.
Nas palavras de Eminem - Sing for the moment:
"That's why we seize the moment, try to freeze it and own it, Squeeze it and hold it, cause we consider these minutes golden"
Estou a ficar sentimental. Bah, tretas!
JN, a Hobbit Marciana do Shire
Lembran�a
Conta-me esta ang�stia que se espreme no meu peito... quero saber que frio � este, o de te largar! Olho a vida a meus p�s, e o tempo que insiste em cal�ar os meus pr�prios passos. Vejo o Sol que aparece todos os dias e todos os dias se p�e igual; a lua que se aclara todas as noites e se oculta todos os dias igual. E eu? Que ciclo darei � minha vida, eu, que todos os dias diferente, me acrescento e diminuo?
Ent�o olho o tempo e tamb�m te olho: quanto mais faltar� para se extinguir definitivamente o teu abra�o? Quem nos vai destruir e exilar para terras diferentes, onde a vida se altera, os modos se alteram, as cores, as pessoas se alteram? Nada sei. Em cada segundo sumido cresce-me um medo enorme em pensar no devir. Mas temo ver-te, um dia, como vejo, hoje, os outros! Falar assim, sem ser totalmente eu, como falo hoje aos outros! J� tem vindo a acontecer esta coisa do largar, deixar escorrer uma l�grima ou outra (aquelas, as de corcodilo...) e jurar companhia eterna...
Mas tu... tu vens sendo cada vez maior, ocupas-me cada vez mais e alargas ao infinito as minhas fronteiras, recentes limites at� � t�o pouco tempo inflex�veis. E eu... eu espero-te em cada palavra destas que escrevo e escolho como filhas da minha alma; eu espero-te em cada som que detecto, em cada brilho que me ofusca! Espero-te s� mesmo porque te vivo, e porque juntos fazemos o mesmo caminho,na direc��o de qualquer luz no interior do nosso peito...
Pensas que n�o te sonho? Ou que n�o me aquece o cintilar dos teus olhos? H� tanta, tanta coisa por dizer, murm�rios insondaveis, brisas antigas que desejava tanto soprar-te ao cora��o. Tanta coisa que havia de ser dita alma-na-alma, tantos segredos s� entend�veis e explicaveis por palavras beijadas, por surdinas arrastadas em abra�os fraternos. � bom quando, simplesmente, estamos, porque sinto o calor de coisas brancas, �nicas, antigas como o pr�prio tempo, coisas puras que emergem de um interior abissal que n�o se cansa de sentir.
Ent�o, no rebordo da janela, esta madrugada penso, ainda que hesitante em pensar: at� quando seremos n�s, eu e tu? At� onde vais ser de mim e eu de ti? Onde os nossos caminhos se separam em estradas diferentes? S� queria que n�o fosses mais uma dessas breves luzes, como aquelas que, na sua dist�ncia de luz, tiritam no c�u da minha madrugada.
Eu sei, por�m, que, por raz�es inquestionaveis, a vida n�o nos vai escolher. Anseias tu, tal como eu, conhecer muito mais al�m de ti, navegar para l� destes mares! Mas de ti, caso �nico, eu n�o queria sair, �s um meu porto. � por ti que eu me naufrago. Porque tem de ser tudo assim, ondas desfeitas que n�o ser�o as mesmas no seu retorno?
A noite n�o me responde. A Lua brilha, mas falsa, a pautar mil reflexos nas folhas tontas, num prisma de cores tristes e neutras, entregues ao seu pr�prio tempo e ao seu pr�prio espa�o.
H� c�es l� fora tamb�m... E humidade a cobrir a rua, como l�grimas gordas a escorrer pelo alcatr�o.
H� coisas inquestionaveis! Coisas... que nos amargam e nos fazem desejar bloquear a fresta por onde perdemos tudo, onde n�o somos nada!
